Tradução autorizada
A parentalidade intensiva está prejudicando os pais, e não só os filhos
Reflexões provocadas pelo alerta do Cirurgião-Geral dos EUA sobre a saúde mental dos pais
Peter Gray, em Play Makes Us Human, 17 de outubro de 2024.
Tradução de Vladimir Dietrich · 12 min de leitura
Os links levam a versões em português — nossas, quando existem, e tradução automática no resto. O selo abre o original em inglês: EN.
Caros amigos,
Em 28 de agosto de 2024, o Serviço de Saúde Pública dos EUA emitiu um alerta oficial de saúde do Cirurgião-Geral intitulado Parents Under PressureEN, que analisa evidências de que ter filhos nos Estados Unidos é um risco à saúde mental. Múltiplos estudos recentes constataram que pais e mães nos EUA são menos felizes e mais estressados, ansiosos e deprimidos do que adultos sem filhos. É claro que o alerta não tem a intenção de dizer às pessoas que não tenham filhos, embora eu não me surpreendesse se ele tiver esse efeito sobre alguns jovens adultos. Muitos já optaram por não ter filhos devido ao sofrimento financeiro e psicológico que observam nos pais ao redor. A intenção do alerta, em vez disso, é dizer a todos nós que, tanto como indivíduos quanto como sociedade, precisamos tomar providências para tornar a parentalidade menos estressante.
Os argumentos por mais assistência pública aos pais
De certa forma, aplaudo o alerta. Ele defende muito bem que os pais nos EUA precisam de mais apoio público do que recebem. Um estudo comparativo internacionalEN de 22 países da OCDE (a maioria na Europa, mas incluindo os EUA) revelou que os EUA ficaram no último lugar absoluto quanto à felicidade relativa de quem tem filhos em comparação a quem não tem. Os pais também eram menos felizes do que quem não tem filhos na maioria dos outros países, mas em nenhum deles a discrepância foi tão grande quanto nos EUA. Na verdade, em oito países, incluindo os países escandinavos Noruega, Suécia e Finlândia, os pais eram mais felizes do que as pessoas sem filhos.
Esse estudo também mostrou uma clara correlação positiva entre o nível de apoio oferecido pelo governo nacional aos pais e a felicidade parental. Os pesquisadores criaram o que chamaram de índice de políticas abrangentes (CPI) para cada país, combinando medições de quatro maneiras pelas quais o governo pode ajudar as famílias. São políticas que garantem: (1) licença parental remunerada para cuidados com bebês, (2) dias remunerados de licença médica e férias, (3) flexibilidade de horário de trabalho e (4) assistência financeira para despesas com creches e cuidados infantis. Como seria de prever, quanto maior o CPI, menos estressados e mais felizes eram os pais. Na escala do CPI, assim como na felicidade parental, os EUA ficaram em último lugar, e os países escandinavos perto do topo.
Mas também precisamos mudar nossa forma de encarar a parentalidade
O alerta do Cirurgião-Geral reconhece que parte do problema tem a ver com a transformação das nossas expectativas sociais em relação a ser pai ou mãe, mas a meu ver ele não vai longe o bastante ao examinar essas expectativas e o que poderíamos fazer quanto a elas. Com o tempo, abraçamos cada vez mais o conceito de "parentalidade intensiva", a ideia de que criar filhos é um trabalho árduo, de que os pais precisam estar intimamente envolvidos em supervisionar e dirigir tudo o que os filhos fazem. O relatório aponta, de fato, que hoje mães com empregos em tempo integral passam em média mais tempo direto com os filhos do que passavam décadas atrás as mães que ficavam em casa.
O Cirurgião-Geral Vivek Murthy parece tomar como certo que ser pai ou mãe é um trabalho árduo. A primeira frase de seu prefácio pessoal ao relatório diz: "Mães e pais costumam dizer que a parentalidade é um dos melhores trabalhos, mas também um dos mais difíceis". Depois, um parágrafo abaixo, ele afirma: "Ser pai é o trabalho mais difícil e mais gratificante que já tive". E ele começa o parágrafo final de seu prefácio com as palavras: "Criar filhos é um trabalho sagrado". Essa frase também é destacada no documento publicado, em grandes letras alaranjadas no alto da página.
Meus pais (minha mãe e meu padrasto) já não estão mais por aqui, então não posso perguntar a eles. Mas tenho 99% de certeza de que eles jamais teriam descrito ser pai ou mãe como um "trabalho". E provavelmente teriam engasgado se alguém descrevesse isso como "sagrado", a não ser talvez se colocado no contexto de uma ideia filosófica ou teológica de que toda vida é sagrada. Como a maioria dos pais na década de 1950, eles basicamente nos deixavam em paz (a nós, seus quatro filhos homens e uma sobrinha). Eles nos deixavam assumir o comando de nossas próprias vidas, cada vez mais à medida que crescíamos. Eles também esperavam que ajudássemos nas tarefas de casa, que fôssemos por conta própria aos lugares onde queríamos ir (de bicicleta, a pé ou de transporte público), que assumíssemos a responsabilidade por nossos deveres escolares ou que arcássemos nós mesmos com as consequências e, na adolescência, que ganhássemos nosso próprio dinheiro com empregos de meio período fora de casa. Nesses aspectos, eles não eram diferentes da maioria dos outros pais daquela época.
Não tenho certeza de até que ponto meus pais e seus contemporâneos pensavam nessas condutas como boas para nós, os filhos, ou boas para eles mesmos, mas o fato é que eram boas para todos nós. Os pais podiam se concentrar em outros aspectos de suas vidas, e nós, as crianças, tínhamos permissão para experimentar a alegria, o orgulho e os benefícios formativos de aprender a assumir a responsabilidade por nós mesmos. Como descrevi anteriormente (por exemplo, aquiEN e aquiEN), as crianças eram muito mais felizes e emocionalmente equilibradas, por qualquer critério disponível, na década de 1950 do que são hoje. Não tenho os dados em mãos, mas aposto que os pais também eram muito mais felizes naquela época. Eu até me arriscaria a dizer que eram mais felizes na época do que os adultos que não tinham filhos. As crianças, a despeito de suas fraquezas e de comportamentos por vezes irritantes, eram no geral uma fonte de prazer, e não de trabalho. E a felicidade dos filhos e a dos pais se reforçam mutuamente. A ansiedade e a depressão dos pais podem contagiar os filhos com as mesmas aflições, e vice-versa.
Palavras sábias de Alison Gopnik
Uma das minhas pesquisadoras e divulgadoras científicas favoritas é Alison Gopnik, a eminente psicóloga do desenvolvimento da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ela é famosa pelas pesquisas que documentam a notável capacidade de aprendizado e de raciocínio de crianças pequenas quando deixadas por conta própria. Gopnik também é mãe de três filhos já adultos e avó de ao menos um menino pequeno. E é autora de um livro de 2016 para pais intitulado The Gardener and the Carpenter. A tese dela ali é que hoje pessoas demais pensam que ser pai ou mãe é como ser carpinteiro. Se você fizer tudo certo, deve obter um produto perfeito. Se errar, o produto sairá defeituoso. Ela diz que a coisa se parece mais com jardinagem. Você planta a semente, oferece o que espera ser um ambiente fértil e observa o crescimento.
Um sintoma do problema moderno, segundo Gopnik, é o uso da palavra parent [pai ou mãe] como verbo em inglês, em vez de apenas como substantivo. Ela afirma que a palavra começou a ser usada dessa maneira pela primeira vez em 1958, e esse uso aumentou continuamente desde então. Eis algumas das palavras de Gopnik sobre esse verbo horrível:
• “’Parent’ não é, na verdade, um verbo; não é uma forma de trabalho, e não é nem deveria ser direcionado à meta de esculpir uma criança para que ela se torne um tipo específico de adulto (p. 8) …. Reconhecemos a diferença entre trabalho e outros relacionamentos, outros tipos de amor. Ser esposa não é engajar-se no 'esposar', ser amigo não é 'amigar', mesmo no Facebook, e não 'filhamos' nossas mães e nossos pais (p. 9).
• “Ser pai ou mãe — cuidar de uma criança — é ser parte de uma relação humana profunda e única, é envolver-se num tipo particular de amor (p. 9). … O amor não tem metas nem projetos arquitetônicos, mas tem um propósito. O propósito do amor não é mudar as pessoas que amamos, mas dar a elas o que precisam para florescer. O propósito do amor não é moldar o destino do ser amado, mas ajudá-lo a moldar o seu próprio. Não é mostrar-lhe o caminho, mas ajudá-lo a encontrar uma trilha por si mesmo, ainda que a trilha escolhida não seja a que nós escolheríamos para nós mesmos, nem mesmo a que escolheríamos para ele. … Amar as crianças não é lhes dar um ponto de chegada; é dar-lhes sustento para a jornada (p. 10).”
• “A palavra 'parenting' [exercício da parentalidade], hoje tão onipresente, surgiu pela primeira vez nos Estados Unidos em 1958 e só se tornou comum na década de 1970 (p. 21). … Mas, na verdade, a parentalidade é uma invenção terrível. Ela não melhorou a vida dos filhos nem a dos pais e, de certa forma, pode-se argumentar que as piorou. Para os pais de classe média, tentar moldar seus filhos para que se tornem adultos valorosos tornou-se fonte de infindáveis ansiedades e culpas, somadas a frustrações. E, para os filhos, a parentalidade conduz a uma nuvem opressiva de expectativas que pairam sobre a cabeça deles (p. 24). … A ascensão da parentalidade acompanhou o declínio da rua, do parquinho público, do bairro e até do recreio escolar (p. 36).
Dando continuidade às metáforas do jardineiro e do carpinteiro, ela escreve ainda:
• “No modelo da parentalidade, ser pai ou mãe é como ser carpinteiro. Você deve prestar alguma atenção ao tipo de material com que está trabalhando, e isso pode ter alguma influência sobre o que você tenta fazer. Mas essencialmente o seu trabalho é moldar aquele material até um produto final que se encaixe no plano que você tinha em mente desde o início. E você pode avaliar o quão bom foi o trabalho examinando o produto acabado. As portas estão no esquadro? As cadeiras estão firmes? A desordem e a variabilidade são inimigas da carpinteira; precisão e controle são seus aliados. Meça duas vezes, corte uma só (p. 18).”
• “Quando cuidamos do jardim, por outro lado, criamos um espaço protegido e acolhedor para que as plantas floresçam. … E, como qualquer jardineiro sabe, nossos planos específicos são sempre contrariados. A papoula brota em laranja fluorescente em vez de rosa-claro, a rosa que deveria subir pela cerca permanece teimosamente a trinta centímetros do chão, manchas pretas, ferrugem e pulgões nunca podem ser vencidos. … E, no entanto, a compensação é que nossos maiores triunfos e alegrias na horticultura também acontecem quando o jardim escapa ao nosso controle, quando a silvestre flor-de-cenoura brota inesperadamente no lugar exato diante do teixo escuro, quando o narciso esquecido migra para o outro lado do jardim e explode entre as miosótis azuis, quando a videira que deveria ficar discretamente amarrada ao caramanchão sobe em revolta escarlate pelas árvores. … Ao contrário de uma boa cadeira, um bom jardim está em constante mudança, adaptando-se às circunstâncias mutáveis do clima e das estações. E, a longo prazo, esse tipo de sistema variado, flexível, complexo e dinâmico será mais robusto e adaptável do que a flor de estufa mais cuidadosamente cultivada (p. 18-19).”
• “Portanto, nosso papel como mães e pais não é fabricar um determinado tipo de criança. Em vez disso, nosso papel é oferecer um espaço protegido de amor, segurança e estabilidade no qual crianças dos mais imprevisíveis tipos possam florescer. Nosso papel não é moldar a mente dos nossos filhos; é permitir que essas mentes explorem todas as possibilidades que o mundo permite. … Não podemos fazer as crianças aprenderem, mas podemos deixá-las aprender (p. 20).”
Amém.
Mais reflexões
Alison Gopnik, é claro, não é a única pessoa sábia a nos aconselhar a relaxar nossas tentativas de controle e a depositar mais confiança no plano biológico da Mãe Natureza para os nossos filhos e na capacidade que nossos filhos têm de levar esse plano adiante a seus modos singulares. Kahlil Gibran, com seu livro O Profeta, certamente é outro exemplo. Na minha próxima carta pretendo aprofundar o conceito do "pai ou mãe suficientemente bom", a ideia de que, assim como Cachinhos Dourados escolheria o mingau que não está nem muito quente nem muito frio, ela escolheria o pai ou a mãe que cria os filhos (olha aí o verbo, mal conseguimos evitá-lo hoje em dia) nem demais, nem de menos.
O que você acha? É possível praticar uma parentalidade confiante, descontraída e alegre (desisto de tentar evitar o termo) no mundo de hoje? Se for, como? Se você acha que não é possível, por quê? Esta série no Substack é, em parte, um fórum para discussões ponderadas. Valorizo imensamente as contribuições dos leitores, mesmo quando discordam de mim — e às vezes especialmente quando discordam. Lendo os comentários das cartas anteriores, você notará que todos aqui são educados. Suas perguntas e reflexões contribuirão para o valor desta carta para mim e para outros leitores.
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Com respeito e votos de tudo de bom,
Peter
Nota adicionada em 23 de out. de 2024. Publiquei agora um novo texto respondendo a dúvidas e comentários sobre esta carta. Você pode encontrá-lo aquiEN. Se você tiver novas perguntas ou comentários sobre esta carta, será melhor publicá-los no novo texto.
Nota do tradutor
Peter Gray escreve dos Estados Unidos e para leitores de lá. Dois pontos da administração pública e cultural americana merecem menção:
- "Cirurgião-Geral dos EUA" traduz U.S. Surgeon General, o chefe operacional do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e principal porta-voz do governo federal em questões de saúde pública e bem-estar da população.
- "Parent" como verbo e "parenting": em inglês, parent é o substantivo comum para pai ou mãe. Gopnik e Gray chamam a atenção para o surgimento do verbo to parent e do termo parenting, que transformaram o que era uma relação de parentesco e afeto em um trabalho técnico e gerenciável. "Parentalidade", usada nesta tradução, é a palavra que o português tem para parenting.
Traduzido do original em petergray.substack.com e publicado com autorização do autor (e-mail de 30/08/2026). Distribuição gratuita e não-comercial.